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Faiança de Coimbra

Entende-se por “Faiança Coimbrã”, a cerâmica com vidrado de estanho que utilizava tradicionalmente azul cobalto em monocromia, mas também amarelos, verdes, e tons ocres. Foi esta arte que, durante muitos séculos, elevou o nome de Coimbra por todo o mundo.


Os “MALEGUEIROS”
O início da produção de faiança em Coimbra terá acontecido algures no séc. XVI. Os homens que a trabalhavam eram denominados “malegueiros”, isto porque seriam originários da cidade de Málaga os primeiros artistas que introduziram esta técnica em Portugal.
Para exercer a profissão, os malegueiros necessitavam da “carta de ofício”, e para a obterem tinham de passar um exame e uma prova prática (o desenformar da louça depois da primeira cozedura) perante os “juízes do ofício”. Em 1623, existia já um documento – o “Regimento dos Oleiros e Malegueiros” – que regulamentava não só a profissão, como as condições de trabalho e fabrico.
Os malegueiros construíram fortunas e rapidamente ascenderam à nobreza, pelo que a Câmara Municipal acabou por lhes instituir a obrigatoriedade de obtenção de licença de trabalho, de contribuição para as festas da cidade e de renúncia a privilégios.
Esta atividade, reservada apenas à classe do povo, era transmitida na família, existindo na cidade várias linhagens que dominaram a indústria da faiança ao longo do tempo. De entre as famílias mais conhecidas, destacam-se os Costa Brioso, os Paiva, os Vandelli, e os Oliveira.


A MATÉRIA-PRIMA
Foi próximo da margem do Rio Mondego, veículo de matéria-prima (o barro), que as primeiras fábricas de faiança se instalaram, aglomerando-se na zona do largo do “Bota Abaixo” e Terreiro da Erva. Marcas desse tempo são a “Rua dos Oleiros”, a “Rua da Louça” e o “Largo das Olarias”, existentes ainda na toponímia atual da cidade.
A proximidade com o Rio permitiu que, no séc. XVII a produção fosse escoada pelo porto da Figueira da Foz, mas implicou também o risco de inundações, que apesar de indesejadas, produziam barro que os malegueiros aproveitavam para os seus trabalhos – nem tudo seria mau nas cheias do Mondego.
Mais ou menos refinada, a matéria-prima era extraída dos barreiros existentes em localidades próximas, como Trouxemil, Póvoa de Bordalo, Fala, Ribeira de Frades, Anobra e Ingote.


LOUÇA VANDEL E LOUÇA RATINHO/A
Domenico Vandelli foi o fundador da Fábrica do Rossio de Santa Clara, em 1784, conhecida por produzir a "Louça Vandel", a mais fina e elegante louça de Coimbra. Vandelli era, contudo, médico e botânico. Veio de Itália para leccionar Química na Universidade, a pedido do Marquês de Pombal, mas o fascínio pela qualidade do trabalho de cerâmica feito na cidade, levou-o a encetar experiências com faiança no Laboratório Chímico e a criar a sua própria fábrica, com a colaboração de Manuel Costa Brioso, patriarca de uma família de malegueiros de Coimbra.
A “Louça Ratinho ou Ratinha” corresponde a uma louça de menor qualidade de materiais, com motivos simples, ingénuos e até defeituosos. Esta louça grosseira recebeu o seu nome pejorativo (“ratinho”) a partir do seu principal consumidor - os camponeses das Beiras que trabalhavam sazonalmente no Ribatejo e Alentejo, e cujos fracos recursos apenas lhes permitiam adquirir louça humilde.
Quando acompanhada por frases/palavras ou “legenda”, a Louça Ratinha torna-se “Falante”. São amplamente conhecidos, e desejados, os “pratos falantes” com desenhos de crianças ou palavras de carinho, apreciados pela sua ingenuidade e candura.
Em 1886 existiam 11 fábricas de cerâmica a laborar em Coimbra, mas com a chegada das Invasões Francesas e da concorrência da cerâmica inglesa, a produção da faiança diminui.


O DECLÍNIO
Já no séc. XX, a Faiança de Coimbra foi industrializada em larga escala. Destacamos o papel da Estatuária Artística de Coimbra (EAC), fundada em 1943 na Rua do Arnado, e que mais tarde, mudaria o seu nome para “Cerâmicas ESTACO”.
A ESTACO chegou a ter cerca de 1000 colaboradores e uma unidade de produção em Moçambique. Mas tal como todo o sector, acabaria por ser sepultada já no final do século XX, declarando-se a sua falência em 2001.
Atualmente, o imenso parque industrial da Pedrulha, onde a fábrica laborava, com cerca de 60.000m2, está irreconhecível: telhados inexistentes, paredes destruídas, vidros partidos. A “fábrica fantasma”, que se encontra à venda, ainda foi defendida pelos trabalhadores nas suas inúmeras manifestações na década de 2000.


MEMÓRIA AFETIVA
A história da Faiança de Coimbra não teve o fim que merecia, mas as amarguras que dela surgiram facilmente se dissolveram no imaginário colectivo, agora preenchido de carinho e de brio pela atividade e pelo produto.
Produto esse que, pela sua raridade, se tornou valioso em Feiras de Velharias e Leilões, e muito procurado por colecionadores privados.
Em Coimbra, podemos ver alguns exemplares expostos no Museu Nacional de Machado de Castro (na foto).


Marcas atribuídas à Faiança de Coimbra:
Alfredo Oliveira
Viúva de Alfredo Oliveira
Retiro das Lages
José Cardoso & Cª.
Veiga Succes COIMBRA
Fábrica da Estação Velha
Manuel da Costa Brioso
Vandelli
Fábrica do Rossio de Santa Clara

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